Dia Mundial da Dislexia

10 de outubro assinala o Dia Mundial da Dislexia

Ser diagnosticado com dislexia pode parecer o fim do mundo, mas isso está longe da verdade. Durante este mês encorajamo-lo a partilhar a sua experiência connosco e a testemunhar em primeira mão como a dislexia faz simplesmente parte de quem é. Use as hashtags #SouDisléxicoEAgora e #DiaMundialDaDisléxia2019 e espreite a nossa página de Facebook e o nosso Instagram!

10 de outubro assinala o Dia Mundial da Dislexia

Ler, escrever, calcular implicam competências prévias

Algumas crianças, apesar de revelarem boas capacidades intelectuais, sentem dificuldades nas aquisições escolares iniciais, baseadas maioritariamente em símbolos.

Em geral, essas crianças possuem algumas áreas imaturas e de baixa eficiência as quais, por serem pré-competências em relação ao ato de ler e escrever, se não revelarem um adequado desenvolvimento, provocam alterações na aquisição e desenvolvimento da leitura, escrita e por vezes matemática. São áreas instrumentais, básicas e essenciais e constituem pré-requisito de aprendizagens simbólicas.

Essas áreas são: i) a linguagem - compreensiva e expressiva; ii) a psicomotricidade, que inclui a interiorização do esquema corporal, a lateralidade (reconhecimento de direita-esquerda no seu corpo e no espaço envolvente), a orientação espacio-temporal (conseguir situar-se no espaço, na folha e num mapa ou compreender uma tabela de dupla entrada, ou aprender as horas, os dias da semana, os meses do ano ou relacionar acontecimentos ordenando-os no tempo); competências percetivas auditivas e visuais (consciência fonológica – da palavra, silábica, intra silábica, segmental; atender a pormenores visuais e perceber as orientações visuo-espaciais dos grafemas; a destreza e controle motor fino (o desenho das letras exige traçados grafo motores com adequado controle e destreza motora fina e seguem uma determinada direção); dificuldades de atenção e de memória (imediata ou de longo prazo, para reter e recordar sequências ouvidas e ou visualizadas).

Estas competências constituem como que “alicerces” em relação à aquisição da Leitura Compreensiva–Escrita–Matemática. A leitura só é possível quando, a partir de uma maturidade indispensável, são conseguidos a integração e o reconhecimento de diferenciações. Como este processo implica captar e interpretar símbolos verbais impressos, ela é uma das formas mais abstratas de estudo. O processo de linguagem implica i) receção, ou seja, a capacidade de ouvir e ler compreensivamente; ii) integração da informação recebida; iii) expressão, isto é, falar ou escrever.

Estas três vertentes encontram-se interligadas e são indissociáveis. Quando um dos aspetos referidos não se encontra bem desenvolvido, isso vai manifestar-se em dificuldades reais no processo de aprendizagem. Atrasos significativos em alguma ou algumas das áreas instrumentais, acarretam fraca realização generalizada, uma vez que, por sua vez, ler-compreender-escrever-raciocinar-escutar-reter são competências transversais a qualquer disciplina escolar.

Há crianças que, por razões múltiplas, não desenvolvem adequadamente tais competências e revelam dificuldades de aprendizagem que se refletem especificamente na eficiência em leitura e escrita.

A maioria das crianças com dificuldades de aprendizagem fica sem apoios especializados, porque se entende que aos docentes do ensino geral cabe fazer a diferenciação pedagógica e oferecer os apoios específicos necessários.

Estes professores não terão formação neste campo, não saberão o que/como fazer, e o melhor tempo para intervir vai-se esgotando. Tais crianças apresentarão áreas fracas ou emergentes, a par de áreas fortes. Os educadores e os professores dos anos iniciais de escolaridade necessitam de perceber os indicadores de possíveis dificuldades em leitura (dislexia ou outras) e treinar intensivamente as áreas com desenvolvimento inadequado. Implicam super-treino para se alcançar uma super-aprendizagem quer em domínios de pré-competência (capacidades básicas anteriores e imprescindíveis à simbolização) quer para colocar em níveis adequados as aptidões de leitura e escrita.

Todas as escolas, preventivamente, têm de cuidar da eficiência dos alunos em:

  1. linguagem compreensiva e expressiva
  2. psicomotricidade - esquema corporal, lateralidade, orientação no tempo e no espaço
  3. consciência fonológica e perceção auditiva e rítmica
  4. perceção visual e táctil e quinestésica
  5. domínio da motricidade ampla e fina

Todas as escolas, têm de identificar cedo e intervir de forma diferenciada, sempre que surgem casos com problemas aparentemente inexplicáveis de:

  1. eficiência em leitura – problemas na descodificação e compreensão
  2. realização na escrita espontânea e ditada – problemas na ortografia, sintaxe e estrutura do discurso.
  3. eficiência em matemática – conhecimento de números, raciocínio, cálculo, técnica operatória.

Atendendo precoce e competentemente a estas dificuldades, assistiremos à clara diminuição generalizada do insucesso e abandono escolar.

Prof.ª Doutora HELENA SERRA FERNANDES

Presidente da Direção da DISLEX- Associação Portuguesa de Dislexia

Outubro de 2019